NOTA DE INTENÇÕES
Quando, há poucos anos atrás, em resposta a um pedido meu, a direcção do Arquivo da PIDE / DGS (polícia política da ditadura portuguesa, 1926-1974) me recusou a autorização para filmar as fotografias dos presos políticos, eu estava longe de saber que um novo filme iria começar a desenvolver-se. Estávamos em 2003 e eu encontrava-me em plena realização de Natureza Morta-Visages d'une Dictature (Still Life). O filme dependia dessas imagens, algumas das quais eu própria já tinha filmado em 2000. Nessa época, registar essas fotografias não requeria qualquer tipo de autorização especial, a não ser a que era dada pelo próprio arquivo. Mas a direcção do arquivo entretanto mudara e com ela a interpretação da lei.
Após insistência, a direcção justificou o motivo da recusa invocando o «direito à imagem»: para filmar as fotografias, eu teria de obter o acordo dos presos políticos. No caso de estes terem entretanto falecido, teria então de obter não só a autorização dos herdeiros, como também de apresentar uma cópia da certidão de óbito. Não me vou deter aqui nos pormenores do complexo processo que me levou, ao fim de alguns meses, a obter as devidas autorizações. Nem me vou aqui deter nos efeitos perversos que pode provocar a aplicação do «direito à imagem» às fotografias impositivamente captadas pela polícia política de um regime ditatorial que durou 48 anos. Refiro apenas que, em todo este processo, falei com mais de uma centena de presos políticos. Inevitavelmente, comecei a ouvir as suas histórias, algumas acompanhadas por comentários às próprias imagens de cadastro: «Está a ver a camisola que eu tenho vestida?»; «Sabe por que eu estou com este sorriso?»; «Já reparou no meu cabelo?».
48 partiu de uma certeza: a de que é possível contar uma história do regime apenas através destas imagens. Mas partiu também de muitas interrogações. Os rostos fotografados pela PIDE fitam-nos, interpelam-nos, perturbam-nos. Como filmá-los, mantendo a integridade desta interpelação? Que duração atribuir a cada plano para que o espaço de ecos e ressonâncias que cada rosto comporta, possa ter existência? Como se transfigura uma imagem através da duração que lhe é imposta? Quanto tempo aguenta um grande plano “em grande plano”? Qual o equilíbrio entre as palavras e os silêncios para que a imagem não fique inteiramente possuída pelo texto? E como construir um espaço que mais do que físico é conceptual?
Mas estas fotografias também são tempo: o tempo contido dentro da fracção de segundo em que o preso enfrenta o opositor e que o filme estende na sua duração; o tempo que nos permite entrar dentro do universo enclausurante das prisões políticas e estar dentro do instante onde se cruza o outrora com o agora; um templo múltiplo que extravasa as noções de passado, presente e futuro. Através de uma linha narrativa que toma como base as acções da polícia política sobre o corpo e a mente dos prisioneiros e de um dispositivo que procura evidenciar a pregnância temporal da imagem, 48 organiza-se através de um conjunto de sequências, cada uma delas comportando um silêncio específico. Estes silêncios não só criam o espaço cinematográfico do filme como nos dão a sentir a própria presença corporal de cada um dos ex-prisioneiros, hoje.
Através das suas palavras, o filme procura desvelar as imagens cuja função original - captar os sinais distintivos da fisionomia e servir de instrumento de identificação (mas também de poder) - ainda hoje cria um véu que as impede de serem realmente vistas. O que nos mostram e escondem estas imagens?
Susana de Sousa Dias





